Empoderamento feminino

Empoderamento feminino

A cada dia eu tenho mais certeza de que vivo numa bolha. Procuro me cercar de pessoas com as mais variadas histórias de vida, pessoas que como eu lutam, sonham e questionam principalmente empoderamento feminino no mercado de trabalho.

Esse belo artigo fiz junto com a minha esposa e espero que agrade a todos.

Empoderamento feminino no Brasil

Cerco-me de pessoas cientes de suas responsabilidades sociais e que buscam ferrenhamente romper com os princípios normóticos que nos regem. Estou cercada de muitas pessoas, mas esse grupo não é tão heterogêneo quanto parece.

Para além de nossos umbigos

Como muitos da minha turma, questiono a forma como a sociedade minimiza as necessidades biológicas de um bebê; luto pelo empoderamento feminino e pela ideia de que é a sociedade que deveria se adequar às necessidades da mulher; defendo a importância do vínculo afetivo entre pais e filhos e estou sempre disposta para alertar sobre o esvaziamento deste em nossa cultura, dentre muitas outras coisas.

Histórias como a que seguem abaixo servem para colocar minha vida e minhas certezas em perspectiva. Uma história real protagonizada por uma mulher forte e determinada. Uma história que propõe uma reflexão sobre responsabilidades e julgamentos. Uma história que não se beneficia de privilégios de nenhuma sorte. Uma história de ausências.

Empoderamento feminino e feminismo

Uma história que me deixou sem argumentos.

Joana começou a trabalhar desde que se entende por gente. Nascida no interior, veio sozinha para capital depois de perder os pais. Enquanto esperava por coisa melhor, foi se virando como empregada doméstica. Nunca conseguiu terminar os estudos. Quando seu expediente acabava já passava das 22h.

A emancipação veio quando decidiu trabalhar como diarista.

Determinada e muito esforçada, logo preencheu todos os dias da semana. Agenda cheia. A equação é simples: quanto mais casas mais dinheiro. Numa dessas, conheceu Luiz, que prestava seus serviços como pedreiro. A obra acabou mas o relacionamento dos dois não. Joana teve com ele dois filhos: Maria e João, hoje com 16 e 14 anos. 

O trabalho e as dificuldades que eram muitas, aumentaram com a vinda dos filhos. O aumento de responsabilidades pesou para o Luiz, que não dispensava a pelada e a cerveja dos finais de semana, fazer sua escolha.

Sozinha com dois filhos, sem nenhum auxílio financeiro do ex-companheiro, Joana se viu obrigada a trabalhar ainda mais. Lavou e passou muita roupa pra fora enquanto seus filhos não tinham autonomia para se virar sozinhos.

O pai?

Com medo de ser chamado à responsabilidade, começou a esparsar suas visitas se fazendo presente apenas em dias festivos.

O tempo passou, os filhos cresceram e Joana sempre se orgulhou por ter conseguido superar todas as adversidades e de ter criado filhos independentes, cooperativos e conscientes. Eram uma equipe.

Como trabalhar o empoderamento feminino

Já pensou no empoderamento feminino no trabalho?

Não é simples, porém continue refletindo no texto.

Para pagar o aluguel de uma casa simples de dois quartos na periferia, Joana precisa trabalhar incessantemente de domingo a domingo. Não se dá um único dia de folga. As casas de seus patrões ficam na área nobre da cidade o que lhe obriga a pegar quatro conduções diariamente. Sai muito cedo e chega muito tarde. Muitas vezes encontrava os filhos dormindo. Vendo que aparentemente estava tudo em ordem, encostava num canto e dormia.

Joana não tinha tempo.
Não tinha tempo para os filhos.
Não tinha tempo para o lazer.
Não tinha tempo para ela.

Sonha e trabalha para, dentro de suas possibilidades, quebrar o ciclo, ou seja, oferecer as oportunidades que nunca teve.

O que a move é a esperança de que os filhos não precisarão reproduzir sua história de vida. 

Tudo o que ganha coloca na mão da filha mais velha, de 16 anos, que é responsável pelo mercado e por manter as contas da casa em dia. Joana sempre que fala de Maria enche os olhos d´água. De  tanta admiração e gratidão, afinal, a filha dá o apoio e o suporte que nunca teve.

Maria fora emancipada mais pela necessidade que pela maturidade.
Tudo que Joana sabia sobre o cotidiano de seus filhos era o que eles mesmos reportavam. Joana precisava confiar neles e nas instruções que lhes passava. Segundo ela, João estava indo bem na escola e Maria apesar de cuidar de todos os compromissos da casa, ainda tinha disposição de ir às aulas e sonhar com o ingresso numa faculdade através do Enem.

Como nenhum problema era comunicado a ela não havia com o que se preocupar. Estava tudo indo muito bem na vida de Joana e de seus filhos.

Até que…

Num dia comum, enquanto limpava resignadamente a sujeira dos outros, recebeu uma ligação da escola informando que foram obrigados a acionar o conselho tutelar por causa das faltas de seu filho caçula.

O mundo como Joana conhecia estava prestes a ruir.

Foi pra casa, não sem antes terminar seus afazeres. Chorou durante todo o trajeto. Na escola, foi informada que o filho não pisava lá há meses.

Por que ninguém a avisou?
Por que deixaram chegar a esse ponto?
Por que os filhos mentiram pra ela? 

A escola se defendeu dizendo que procuraram pelo pai, aquele ausente de toda uma vida. O pai tomando ciência do ocorrido, disse que não podia fazer nada. Alegou que quem os cria é a mãe e só ela poderia dar um jeito.

Diante da mãe que se sacrificava diariamente para lhes dar o mínimo de conforto, os filhos não disseram palavra.

Junto ao conselho tutelar, Joana ouviu tudo o que desmerecidamente merecia ouvir. Ameaçaram tomar a guarda do filho. Por fim, a ameaçaram com “cadeia”. 

Onde estava o pai neste momento?

O peso de todo julgamento recairá sobre as costas de quem? 
Joana se viu obrigada a tirar uns dias de folga. Contando com a compreensão dos patrões e confiando na sua boa reputação de mulher trabalhadora, ligou para todos eles explicando sua ausência. Alegou motivos pessoais.

Uma das patroas foi ríspida. 

– Problema pessoal tenho eu, minha filha. Por isso eu te pago pra cuidar dessa casa.

Joana aprendeu de forma amarga que momentos de crise são reveladores. 

Sem a névoa do cansaço, pôde olhar para os filhos da forma como eles são e não do jeito que imaginou como eles fossem.

A sua ausência tinha um preço.

Maria estava longe de ser a parceira que a mãe idealizou. Soube por João que todos os dias sua irmã o colocava pra fora e só permitia sua entrada na casa à noite, depois que todas as amigas e o namorado dela haviam ido embora. Joana nunca imaginou que estava acontecendo ao filho e não entendia os motivos da filha.

Havia uma outra revelação: Maria, sem que a mãe pudesse notar, estava grávida de 7 meses!!! E agora?

Sua filha estava grávida – ficou repetindo isso para si ad infinitum.

O peso de todo julgamento recairá sobre as costas de quem?

Para uns, o mundo exige pragmatismo. Joana precisava sufocar suas desilusões, erguer sua cabeça e continuar a luta diária.

O tempo passou, a criança nasceu e agora ao invés de dois, Joana tem três crianças para criar. Sozinha como sempre foi. Suas crianças também seguiriam sozinhas sem o apoio de nenhum cuidador, de nenhum responsável. Tudo como antes. 

O dilema da vida de Joana persiste enquanto a roda da vida gira.
Ou trabalha e continua ausente.

Ou para de trabalhar e deixa de botar comida em casa.

Continuará sem tempo.
Sem tempo para os filhos.
Sem tempo para o neto.
Sem tempo para o lazer.
Sem tempo para si.

Sonha e trabalha para, dentro de suas possibilidades, quebrar o ciclo, ou seja, oferecer as oportunidades que nunca teve.

O que a move é a esperança de que os filhos e o neto não precisarão reproduzir sua história de vida.

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Mariano Gomes

Blogueiro e formado na universidade do Rio de Janeiro na área de economia. Não segui nessa área e mudei. O mundo virtual trouxe outras oportunidades. https://worldsoccer2014.co.uk/sobre/

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